São voltas e voltas




Acho engraçada a forma como a vida nos troca as voltas, principalmente quando pensamos que controlamos as voltas que a vida pode dar!
A Nela achava-lhe piada… O Vitinha tinha uma certa pinta, um ar diferente dos outros rapazes que víamos desfilar nas tardes solarengas passadas na esplanada da Montalegrense. O Vitinha, sem saber, começou a fazer parte do nosso mundo, a fazer parte das nossas conversas, a ser centro das nossas piadas e a ser alvo de momentos de espionagem! Ele também morava, e ainda mora, no Bairro amarelo, onde tudo tem mais cor! Apesar de terem vivido tão perto eles ficaram sempre longe.
A Nela acabou o curso e eu continuei na nobre Academia Minhota.
Cada vez que passava pelo Vitinha sentia, por solidariedade para com a minha amiga, uma certa raiva por nunca se ter passado nada. E ele, sempre muito sério e enigmático, passava com ar de importante, até que comecei a fazer juízos negativos sobre ele.
Depois de comentar com a Luny que ele ficava sempre a olhar para mim e que não devia ir com a minha cara, ela, que faz justiça ao facto de se ter uma só boca e dois olhos, (calada, mas sempre atenta ao mais subtil gesto) chegou à conclusão que ele afinal olhava porque nutria por mim uma certa simpatia. Foi como uma bomba!! Como podia o “gaijo” de uma amiga minha olhar para mim?! Nem conseguia conceber tal ideia.
Os dias foram passando, eu fiz um esforço para não pensar nele, não estava confortável com aquela situação. Mas passei a vê-lo cada vez mais, começamos a frequentar os mesmos ambientes, as trocas de olhares foram aumentando e eu, que nunca tinha olhado para ele com olhos de ver (porque homem de amiga minha é mulher!!!) descobri-lhe a pinta!
Acabei a rir desta situação com a Nela, que me deu toda a força e carta branca para investir, pois o Vitinha era coisa do passado e ela já andava noutros voos lá prós lados da capital!
Quando dei conta que pensava nele mais vezes do que as que pensava noutro rapaz qualquer, que fazia tudo para o ver, quando finalmente comecei a ficar entusiasmada com a ideia, parecia que o Vitinha já não estava interessado! Então a história não tinha começado com os olhares dele? Invertera-se o jogo? Afinal eu é que fiquei pelo beicinho por pensar que quem estava pelo beicinho era ele! Ora cá estão as famosas voltas da vida!
O seu corpo é mais franzino à vista do que ao toque, como tive oportunidade de comprovar mais tarde, e o seu ar sério, tal como eu desconfiava, é como uma imagem de marca! Como é que alguém que tem dois palminhos de cara se pode achar feio quando se ri?!
Em segredo, nas conversas com as amigas, chamava-lhe pintainho, não como nome carinhoso (piroso!!) com que as namoradas chamam os seus queridos, mas simplesmente pelo formato da sua cara, pela sua boca pequena.
A primeira vez que o ouvi falar foi um simples “Boa tarde” mas foi estranho porque tem a voz bem mais grossa do que se pode adivinhar pelo seu aspecto. Valeu-me um comentário que ainda agora nos faz rir: “Afinal o pintainho faz PIU PIU!!!”.
Fiz um esforço para contrariar a minha maneira de ser, venci a timidez que me amarra nestas situações e aos poucos fui-me aproximando do grupo dele.
Muitas vezes ele está mesmo ao meu lado, mas eu já estive bem mais perto do Pintainho. Posso dizer que agora estou a um amigo de distância... É que a vida não para de dar voltas!!
Pérola Negra

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