HERÓIS


"Vês Miguel, se tivesses nascido no nosso tempo a esta altura estavas a preparar-te para ir para a Guerra..." disse a minha mãe. Fez-se silêncio.
Olhei para o meu primo, um autêntico miudo (apesar de já ter 20 anos ) e que nem à Tropa foi. Ao lado dele o meu pai, um veterano da Guerra Colonial. Que realidades tão distantes...
Tentei imaginar o meu primo a preparar-se para daqui a 1 ano ou 2 ir para uma das Colónias combater. Tentei imaginar o meu primo fardado, com uma metralhadora e outras armas a pender do seu peito, com granadas presas à cintura, a preparar um obus ou um canhão... Tentei imaginar o meu primo a carregar numa maca um colega gravemente ferido. Tentei imaginá-lo a correr para as trincheiras durante um bombardeamento. Tentei vê-lo no meio do mato sem água para se lavar, sem o que comer. Tentei imaginar o pavor de pisar uma mina marcado no seu rosto. Tentei imaginar isso tudo, mas, sinceramente, não consegui...
Mais difícil ainda é imaginar que o meu pai esteve lá! É ouvir as histórias dele e imaginar as outras que ficaram presas no silêncio dos tempos.
É difícil imaginar a minha mãe com medo de perder o namorado e algum dos 3 irmãos que também lá estavam a combater. Custa-me imaginar as lágrimas das minhas avós carregadas de saudades dos seus filhos, o peito constantemente aberto pelo medo de receber a pior das notícias.
Hoje, por um acaso, voltei a falar da Guerra, com alguém cujo pai também foi combatente. No final da conversa agradeci por o meu pai não ter nenhum trauma, por não ter ficado com marcas profundas, nem físicas, nem psicológicas.
Faço aqui uma singela homenagem a todos os que combateram na Guerra do Ultramar.
Ao meu pai, ao teu pai, aos meus tios, aos vossos pais, aos vossos tios, padrinhos, amigos, avós... Aos que ainda cá estão e aos que já partiram. São verdadeiros HERÓIS!

7 Vizinho(s) mais amarelo(s):

Joana disse...

A todos eles um bem hajam!

Beijinhos

VIRTUAL ART disse...

Obrigado. É muito bom ouvir estas da boca dum jovem. Nem todos pensam assim, já que tudo está a ser feito para branquear uma parte da nossa História, tão digna como todas as outras.

Francisco Dores disse...

Belo naco de prosa.
Muito obrigado pelas suas palavras.
Eu estive lá.
F. Dores

Pérola Negra disse...

Eu é que agradeço as vossas palavras, a vossa visita, a vossa leitura das minhas humildes letras. Muito me honram.
Nós é que temos que vos agradecer por terem estado lá, por terem dado a vida pela Pátria de todos nós!

wolf disse...

Obrigado pelas linda prosa, ainda por cima vinda de um jovem.náo fomos aquela escumalha que ainda á pouco o A.L.A., quis fossemos.
Eu estive lá, Guiné

anocedotsog disse...

Meu Caro Desconhecido Amigo Pérola,

EU ESTIVE LÁ
E milhares tambem!
Aproveita o que podes ouvir contado na 1ª pessoa porque começam a ser poucos os que o podem fazer...mas cuidado...não te deixes levar, denuncia o que te pareça suspeito como os contos desse tal escritor A.L.A. que insultou milhares!
É gratificante ler o que jovens como tu expressam...não vendes peixe, analisas, e o critério de cada um não sai duvidoso...isso é muito lindo! Parabens.

Anónimo disse...

Obrigado por pensares assim. Gostei de ler estas palavras vindas de um jovem filho de um ex-combatente, é dificil os jovens de hoje terem esse penssamento. Ao lerem o que alguns a.l.a. escrevem da guerra colonial portuguesa, essas fantasias levam a penssar e a fazer de nós uns assasinos da altura, não fomos culpados de uma guerra que nos foi imposta. Era-mos incumbidos de uma missão e no terreno por vezes havia falhas e era necessário resolvermos a situação o melhor possivel o que não era fácil, eramos jovens de 20 anos alguns treinados e preparados para qualquer missão que nos fosse incumbida,fomos defender uma Bandeira que é nossa, que muitos nos orgulhamos.Hoje para compreendermos o porquê dessaguerra é preciso lermos o pasado e cada um fazer a análise do porquê e não irmos a reboco de certos lobos vestidos de pele de cordeiro.
Eu tambem lá estive, fui "COMANDO" em Moçambique mas não posso permitir que os ex-combatentes sejamos tratados como ex-assasinos.
Código de Guerra "SARDIHA"