Pais

Tive uma conversa no fim-de-semana passado que ainda hoje faz eco na minha cabeça. Estávamos no café, éramos apenas quatro... eu, a minha irmã e mais duas amigas. A conversa, que normalmente anda por todo o lado foi parar aos nossos pais. Uma delas começou a relatar a "porrada" que levou do pai em criança. Chapadas dadas por um pai que ficava cego a bater. Não é a primeira vez que ela fala da severidade do seu pai. À distância desse tempo, vai relatando as cenas de uma forma meio divertida, com sorrisos pelo meio, para tornar o assunto mais ligeiro. Uma máscara, diria eu...
Entretanto começou a outra amiga a falar. Se me doeram as histórias da primeira, como chapadas dadas na minha cara, o abrir do coração da segunda marcou-me mesmo... Aqui não se trata tanto de violência física mas psicológica. Uma exigência extrema imposta por uma mãe que quer as filhas perfeitas em tudo. Marcas profundas, que ficam gravadas para toda a vida. Uma busca pela perfeição, um sentimento de insegurança e de fragilidade por achar que nunca será boa o suficiente em nada. Pelo menos para a mãe. As lágrimas saltaram dos olhos dela, ao mesmo tempo que as palavras explodiram na sua boca. Palavras guardadas há muito e que naquele dia acabaram por sair.
Eu e a minha irmã permanecemos mudas. Não tínhamos nada para contar sobre aquele assunto. Nem uma chapada na cara sequer. Nenhum mau trato. Nenhuma pressão extrema. Nenhum desgaste, nenhum trauma. Absolutamente nada para contar...
Quis escrever este texto por dois motivos. Primeiro para exaltar a coragem de quem se abriu. Uma coisa é ter a noção da realidade porque vivi sempre perto dela, tão perto... outra coisa é ouvir contar, é ver exposto o sofrimento. Como já vi noutros casos também ,noutras casas. Chorei por dentro. Dei-lhe a minha mão enquanto falava. Aliás ela sabe que nunca largo a mão dela. E é por isso hoje escrevo. Para que nunca se esqueça disto também. Para que também isto seja uma marca!
Em segundo lugar este texto serve para, mais uma vez, agradecer os pais que tenho.
O meu pai costuma dizer que não foi ele e a minha mãe que "escolheram" as filhas ... fomos nós que os escolhemos a eles! Não podíamos ter escolhido melhor!

5 Vizinho(s) mais amarelo(s):

ML disse...

Eu teria a imensa sorte de nessa conversa também permanecer calada, sem qualquer tipo de maus momentos para contar.

Nesse campo, também sou uma sortuda. E dou todos os dias valor aos pais que tenho!

Poetic GIRL disse...

Nós somos compostos essencialmente pelo que os nosso pais são para nós. A maneira como nos tratam, a forma como dão carinho irá sempre se reflectir na nossa maneira de ser. Eu tenho muita sorte também, apesar de o meu pai já não ser vivo, nunca senti nenhuma forma de mau trato nem físico nem psicológico, nem da minha mãe. Apenas me incutiram ser simples, honesta e acima de tudo feliz. E esses principios sigo-os cegamente. Choca saber que há tanta gente que infelizmente não tem nos pais o apoio que era suposto haver. bjs

Joana disse...

É bem verdade o que o teu pai diz. Somos nós que escolhemos os nossos pais.
Eu também tenho uns pais excelente. Se tivesse hipotese de escolher novamente, não escolhia outros. :)

T. disse...

é fantastico saber que se assistir um dia a uma conversa assim, também irei permanecer calada. Escolhi muito bem os meus pais :p

kuka disse...

Eu também teria que ficar calada,mas não pelo motivo de não ter nada para dizer do meu pai,apenas porque ele nunca esteve presente.Vale,valeu e sempre valerá a minha mãe e aqui digo,é um prazer ser filha dela,aparte todos os problemas.